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Herberto Helder
ilha da Madeira, Portugal. 1930 ÚLTIMA CIÊNCIA (1985) 4
A solidão de uma palavra. Uma colina quando a [ espuma salta contra o mês de maio escrito. A mão que o escreve agora. Até cada coisa mergulhar no seu baptismo. Até que essa palavra se transmude em nome e pouse, pelo sopro, no centro de como corres cheio de luz selvagem, como se levasses uma faixa de água entre o coração e o umbigo.
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Ninguém sabe se o vento arrasta a lua ou se a lua arranca um vento às escuras. As salas contemplam a noite com uma atenção [ extasiada. Fazemos álgebra, música, astronomia, um mapa intuitivo do mundo. O sobressalto, a agonia, às vezes um monstruoso júbilo, desencadeiam abruptamente o ritmo. — Um dedo toca nas têmporas, mergulha tão [ fundo que todo o sangue do corpo vem à boca numa palavra. E o vento dessa palavra é uma expansão da [ terra.
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Quem bebe água exposta à lua sazona depressa: olha as coisas completas O barro enlaça a água que suspira lunarmente que impregna o barro com a sua palpitação aluada. São uma coisa única e plena: uma bilha. Quem bebe e olha fica misterioso, maduro. Tudo se ilumina da altura de uma pessoa imóvel. Quem se dessedenta delira, vê a obra: O que se bebe das bilhas que a lua enaltece — água e nome na boca.
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A arte íngreme que pratico escondido no sono [ pratica-se em si mesma. A morte serve-a. Serve-se dela. Arte da melancolia e do instinto. Quando agarro a cara, a rotação do mundo faz rodar a olaria astronômica: uma cara chamejante, múltipla, luxuosa. Deus olha-a. E a arte alta do sono fica pesada: — Mel, o mel em brasa, a substância potente, elementar ardente, obscura, doce de [ uma doçura fortíssima, o mel, arrebatada. Uma arte inextricável que, pela doçura, enche as bolsas cruas da carne, embriaga, queima tudo, mata, mata.
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O dia abre a cauda de água, o copo vibra com tanta força, as unhas fulguram sobre a toalha. Cada palavra pensa cada coisa. Entre imagens de ouro e vento, a constelação [ arterial dos objectos do mundo alarga os braços furiosamente de abismo a abismo. A mão convulsa manobra a vida máxima. E então sou devorado pelos nomes selvagens.
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O canteiro cheira à pedra. Da rosa cavada nela [ cheirará, por dedos e pensamento, à obra? Abre uma coroa. A pedra fecha-se na sua teia de água. Com tantos martelos secos, com tanta idade louca, com tanta pedra inteligente, com tanta mão aluada — o canteiro [ desentranha outra mão: — A mão do nervo da pedra, rosa assustadora: Que desentranha a prumo forte, em ebriedade e inclinação de lua. Enxofre, sal, rosa potente. — O canteiro é a sua rosa, a sua obra desabrochada.
De Última Ciência (1985, revisto em 1987)
Envio Carlos Machado, poesia.net
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